BioAlentejo

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Monday, March 13, 2006

Produção de Ceriais de Sequeiro em Ferreira do Alentejo

A produção de cereais, de sequeiro, em Portugal, tem tendência a diminuir drasticamente nos próximos anos. Este facto é mais prenunciado no Modo de Produção Biológico (MPB), onde as quebras produtivas em relação ao dito modo de produção convencional rondam valores de 50% ou mais.
A razão deste facto deve-se, por um lado aos preços baixos pagos aos cereais de uma maneira geral. No MPB este preço tem um acréscimo de 30% em relação ao convencional, o que não corresponde ao valor real dos custos de produção, nem à maximização do valor nutritivo do alimento produzido deste modo. Por outro à entrada dos países de Leste na União Europeia, onde nalguns deles, atingem produções três vezes superiores às Portuguesas.
No entanto, um país não pode depender de terceiros, na totalidade, ao nível alimentar, principalmente de um alimento como o trigo, por exemplo, que é a base da alimentação nacional. Daí uma das razões de se continuar a produzir este bem tão precioso, aliado ao modo extensivo tradicional de produção pecuária, que em tudo depende da produção cerealífera.
É comum, um produtor de cereais que anteriormente produzisse no modo convencional, sentir-se perdido por não saber que “produto” a usar para substituir a adubação azotada. Então procura, com um certo desespero, algo que substitua esse azoto, não olhando a custos.
A conversão para o MPB tem de ser uma conversão de mentalidades, e para quem faz cereais este factor é essencial. Os fertilizantes orgânicos que contém algum azoto, são geralmente muito caros e aplicados em áreas muito grandes, os custos de produção tornam-se tão elevados, que são difíceis de suportar. Então a solução deste problema (que é onde vem as mudanças de mentalidade) só se pode resolver com a introdução de culturas que forneçam azoto – LEGUMINOSAS. Torna-se muito difícil produzir cereais (gramíneas) sem se introduzir leguminosas na rotação.
O que se pretende neste artigo é dar alguns exemplos práticos do trabalho que se vem efectuando na zona de Ferreira do Alentejo, a alguns anos, e onde se consegue obter resultados satisfatórios.
Um exemplo de uma rotação em curso, numa área com cerca de 50 hectares, é a seguinte: pousio – grão-de-bico – trigo mole – faveta – cevada branca, podendo a faveta ser substituída por ervilha forrageira. Esta rotação é a que se mostrou mais eficiente produtivamente, neste tipo de solo, que se caracteriza por ser argiloso, com um pH alto (8.4) e de classes de uso A e B.
Após um ano de pousio o solo é mobilizado por um riper (alfaia pesada idêntica ao escarificador) no fim do Verão. Só em Março/Abril, do ano seguinte, é que é instalada a cultura, sendo esta a única cultura de Primavera /Verão, sendo as restantes de Outono/Inverno.
A preparação do solo para todas as culturas passa por fazer, no mínimo, duas falsas sementeiras antes de se mandar as sementes à terra. Preferencialmente usa-se alfaias de “dentes”, como por exemplo o chisel e o escarificador, para evitar o reviramento do solo, mas quando existe muita erva, é necessário o uso de grade de discos, para destroçar e enterrar, de modo a que as infestantes não entrem em competição nutritiva e hídrica com a cultura.
O grão-de-bico é semeado por um semeador pneumático ou de linhas. A sementeira da faveta é feita a lanço e posteriormente tapada. O trigo e a cevada podem ser semeados a lanço ou com semeador de linhas. Em todas as culturas é essencial fazer uma rolagem logo após a sementeira, para conservar a humidade do solo e para “aconchegar” a semente ao solo.
Observa-se que através desta rotação há um óptimo controlo das infestantes, coexistindo as poucas que há, em harmonia com a cultura. As “infestantes” ou ervas, acabam por ser benéficas para a cultura se não forem em excesso, porque servem de habitat para insectos auxiliares e algumas são leguminosas bravas que “ajudam” as gramíneas com os seus risobhium.
Outro aspecto observado, consiste no facto da cultura de leguminosa antecedente às gramíneas, deixar sementes no solo que irão germinar ao mesmo tempo que o trigo ou a cevada. Estas leguminosas vão fornecer azoto, o que faz aumentar a produtividade da gramínea. Por este factor deveria ser permitido em termos comunitários, no MPB a introdução de algumas leguminosas, numa percentagem mínima, na produção extreme de gramíneas.
Após a colheita é importante o aproveitamento dos restolhos somente através de pastoreio. Assim, os animais, como por exemplo os ovinos, vão consumir as palhas, que por sua vez se ficarem no solo necessitam de azoto para se decomporem, azoto esse que irá fazer falta à cultura seguinte, e para deixarem matéria orgânica no solo através dos dejectos.
As produções observadas em anos climáticamente normais, com variedades autóctones, mais rústicas, mas menos produtivas, rondam em média os 1000 kg das leguminosas e os 1500 kg a 2000 kg nas gramíneas.
A produção de cereais de sequeiro está sempre dependente de factores externos, principalmente de ordem climática, mas cabe ao produtor arranjar as condições ideais para que esses factores sejam minimizados.


Figura 1 – Grão-de-bico (variedade Amarelo Alentejano?)



Figura 2 – Cevada Branca


Figura 3 – Fava Ratinha ou Faveta

Eng.ª Ana Marina Carvalho



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